segunda-feira, 20 de novembro de 2017

(Capítulo 63 – Desgosto)

Durante toda a noite de sexta-feira para sábado, Luan não parou de me ligar, me fazendo sentir uma raiva tremenda por tudo o que eu estava passando. Eu não o atendi, queria distância de Luan, porque ele tinha uma grande parcela de culpa em tudo isso. Eu só precisaria de um tempo para digerir toda essa situação, tentar organizar minha vida, porque tudo estava sendo muito difícil. Acordei no dia seguinte sentindo um forte enjoo, demorei um pouco para levantar, mas assim que consegui, cuidei logo de tomar um banho e arrumar minha pequena mala. Eu queria passar apenas esse final de semana com minha família, na segunda-feira eu pretendia voltar para a agência e tentar seguir minha vida normalmente. Depois de tudo organizado, segui para a cozinha, onde encontrei Laura preparando nosso café e falando ao telefone.

– Bom dia! – Sorri quando ela encerrou a ligação.

– Bom dia, prima! – Me abraçou carinhosa – Pronta para nossa viagem?

– Um pouco nervosa. – A olhei – Não vai ser fácil olhar para os meus pais e dizer que estou grávida. – Ela começou a rir.

– Já avisei ao Douglas que vou viajar com você.

– Você falou pra onde nós vamos? – Perguntei preocupada.

– Para a casa da nossa tia Beth, lá de Recife.

– Quem é tia Beth? – Perguntei confusa.

– Não sei, vamos conhecê-la agora nessa viagem. – Falou naturalmente.

– Você é louca, Laura? – Comecei a rir descontroladamente – Como é que você inventa uma tia que não existe?

– E você queria que eu entregasse nosso real destino?

– Não, mas mentir que vamos pra casa de uma tia que nem existe. – Continuei rindo.

– Fica tranquila, ele caiu direitinho. – Sorriu satisfeita.

Laura me falou que Luan chegou a ligar pra ela, mas não atendeu, assim como desconversou quando Douglas perguntou por mim. Após nosso café da manhã, começamos a nos arrumar, enquanto eu tentava fazer meu nervosismo sumir um pouco.

– Imagina se for uma menina? – Laura perguntou me surpreendendo.

– O que?

– Se esse bebezinho for uma menina. – Sorriu – Ela será muito linda.

– Assim como se for um menininho. – Sorri me olhando no espelho – E amor é o que não vai faltar.

– Você é uma mamãe linda de morrer. – Confessou colocando uma tiara de florzinhas na minha cabeça.

– Você acha que eu estou diferente? – Perguntei curiosa.

– Você está mais iluminada, assim como suas estrelas. – Sorri a abraçando.

– Então estou bonita.

– Anda, me deixa tirar uma foto sua. – Ela tirou uma foto linda, me fazendo postar logo em seguida.

“E agora ser feliz é nossa obrigação, seu nome já faz parte da minha oração. Eu só quero mais, tempo pro nosso infinito durar.”

Coloquei na legenda uma música de Breno e Caio Cesar, de composição do Luan, fazendo com que ele sempre estivesse presente. Depois de pronta, pegamos nossas coisas, fechamos nosso apartamento e seguimos para o aeroporto. Eu estava nervosa, com medo de como poderia ser a reação deles, das pessoas mais importantes da minha vida. Entrei naquele avião sentindo algo profundamente ruim me consumindo pouco a pouco, tive vontade de voltar pra minha casa, mas eu precisava ser forte. Depois de alguns minutos, eu estava colocando meus pés novamente na cidade onde enfrentei os melhores e piores momentos da minha vida. Acabei não ligando para minha mãe, queria fazer uma surpresa, mesmo rezando para que meu pai não estivesse em casa. Eu queria conversar primeiro com ela, queria poder receber seu apoio, mesmo sabendo que antes ela me daria uma bronca.

– Chegamos! – Laura me olhou – Está pronta?

– Eu acho que sim... – Respirei fundo.

– Vamos, então.

Descemos do carro sem saber o que nos esperava lá dentro, mas era preciso prosseguir. Eu pedia mentalmente que Deus me ajudasse em todos os momentos, que ele não me deixasse fraquejar, mas que eu continuasse firme. Caminhei com Laura ao meu lado até a entrada da casa dos meus pais, meu nervosismo aumentava a cada segundo, eu estava prestes a chorar. Toquei a campainha me tremendo toda, que momento louco, muito difícil lidar com esse tipo de situação.

– Alice? – Minha mãe atendeu surpresa.

– Oi, mãe! – Sorri nervosa – Tudo bem?

– Filha, por que não avisou que estava aqui? – Sorriu ainda surpresa – Aconteceu alguma coisa? – Nos cumprimentou com um abraço apertado.

– Eu quis fazer uma surpresa. – A abracei com todo meu coração.

– Surpresa? – Me olhou confusa.

– Tia, parece que não gostou da nossa visita. – Começou a rir pra tentar descontrair.

– Eu amei, mas vocês sabem que não gosto de surpresas. – Falou natural.

– Cadê todo mundo? – Perguntei sentando no sofá. 

– Seu pai e Benjamim foram na casa de sua avó.

– E Dora? – Laura perguntou.

– Tirou o dia para visitar uns parentes. – Sentou ao meu lado – Vocês querem comer alguma coisa?

– Tem algo doce aí? – Perguntei sentindo uma vontade absurda de comer doce.

– Venham comigo. – Seguiu rindo para a cozinha.

Mamãe nos serviu um bolo maravilhoso de chocolate, aquelas sobremesas deliciosas que só a Dora sabia fazer. Eu comi três pedaços, fazendo minha mãe me olhar assustada e ao mesmo tempo surpresa com meu apetite. Passamos quase quarenta minutos comendo, coversando e matando um pouco da saudade, coisa que sempre estava presente em mim.

– O que foi? – Mamãe perguntou quando eu a olhei, procurando a maneira certa de lhe contar sobre minha gravidez.

– Eu preciso conversar com a senhora. – Falei receosa.

– O que aconteceu, Alice? – Perguntou já preocupada.

– Eu sei que vai ser complicado de entender, mas eu não quero que a senhora me julgue.

– Você não vai me dizer...

– Estou grávida! – Falei mais rápido possível.

– O que? – Quase gritou – Você tá grávida?

– Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo, estou muito assustada.  

– Vocês foram extremamente irresponsáveis, Alice!

– Eu sei, agora estou pagando por isso. – Comecei a chorar.

– Eu não estou acreditando nisso. – Tentou se acalmar – Seu pai vai te matar.

– Eu não sei como vou contar pra ele. – Confessei enxugando minhas lágrimas, enquanto Laura buscava uma água pra gente.

– E Luan? – Perguntou me pegando de surpresa – Como ele reagiu?

– Ele ainda não sabe. – Não quis contar a ela sobre o que aconteceu – Estou esperando ele voltar de viagem pra gente conversar.

– Como você deixou isso acontecer, filha? – Parecia mais calma – Como você está se sentindo?

– Eu estou com muito medo, me sinto a pessoa mais frágil do mundo. – Confessei com lágrimas nos olhos.

– Venha aqui. – Abriu os braços para que eu me acolhesse dentro deles – Um filho é uma grande responsabilidade, mas eu tenho certeza que Deus não te daria um presente como esse sem um bom motivo.

– E meu pai? – Perguntei ainda encolhida em seus braços.

– Nós vamos conversar com ele.

Enquanto eu tentava me acalmar, minha mãe parecia perdida, pensativa com essa grande novidade. Conversamos sobre como eu descobri sobre minha gravidez, sobre a conversa com meu médico, contei que tinha a primeira consulta na terça-feira. Ela parecia assustada, mas ao mesmo tempo estava feliz, porque ela sabia o quanto a família era importante na vida de um ser humano. Enquanto conversávamos, Luan me ligou mais três vezes, mas apenas recusei como todas as outras vezes. Fui buscar mais um pouco de água, quando gelei ao ouvi a voz de meu pai e Benjamim entrando, eu não tinha mais como fugir dos dois.

– Ô mãe? – Benjamim gritou – Cadê a senhora?

– Estou aqui, filho! – Ela respondeu da cozinha.  

– Alice? – Ele parou na porta surpreso.  

– Oi, Ben! – Sorri correndo para seus braços.

– Está fazendo surpresa? – Perguntou me apertando.

– Uhum, estava morrendo de saudade. – O olhei carinhosa.

– Olha quem está aqui, Pai. – Ele apareceu na cozinha.

– Oi, Pai! – O olhei apreensiva – Tudo bem?

– O que está fazendo aqui? – Perguntou frio.

– Que pergunta é essa, Paulo? – Minha mãe perguntou assustada – Você esqueceu que essa casa ainda é dela?

– A partir do momento em que ela decidiu faze essa loucura de morar em São Paulo, ela perdeu todo o direito dessa casa. – Me surpreendi com suas palavras.

– Desculpa por ter vindo para a sua casa sem avisá-lo. – Enxuguei uma lágrima – Não se preocupa, eu vou embora.

– Pai, não é possível que o senhor esteja falando um absurdo desse com sua própria filha! – Benjamim me impediu de sair – Você vai pra onde?

– Eu vou embora, ele não quer que eu vá embora?

– Essa menina perdeu todo o respeito com seus pais, com seu irmão.

– Respeito? – O olhei rindo – O senhor quer falar de respeito comigo? Logo o senhor que não respeita minha decisão de ser feliz vivendo uma vida longe daqui? – Quase gritei.

– FALA DIREITO COMIGO! – Ele gritou mais alto.

– Alice, você não pode ficar nervosa. – Laura me segurou pela cintura – Senta aqui, vai?

– O senhor nunca vai me perdoar? – O olhei – Nunca vai aceitar minha felicidade?

– Sua felicidade está aqui com sua família.

– O senhor é um egoísta! – Deixei minhas lágrimas caírem.

– CALA SUA BOCA, ALICE!

– O senhor quer tudo do jeito que o senhor acha melhor, isso é coisa de egoísta!

– Você merece uma surra! – Falou vindo em minha direção, mas benjamim se colocou em minha frente.

– PAULO, ELA ESTÁ GRÁVIDA! – Minha mãe gritou aos prantos.

– Ai... – Senti uma dor fortíssima, enquanto meu pai e Benjamim estavam paralisados.

– Vem, senta aqui. – Laura me chamou.

– Grávida? – Benjamim me olhou surpreso.

– Quero que você saia da minha casa, Alice! – Meu pai falou depois de alguns segundos – AGORA!

– O que? – Minha mãe perguntou desesperada – Você está louco, Paulo?

– O que, Pai? – Comecei a chorar.

– Você é o meu maior desgosto! – Confessou me fazendo sentir ainda mais essa dor insuportável.

– Ai, minha filha! – Minha mãe começou a chorar junto comigo.

– Não faz isso, Pai! – Benjamim tentou convencê-lo – O senhor está fazendo uma besteira!

– Se é isso que o senhor quer, eu vou embora. – Levantei com a ajuda de Laura.

– NÃO! – Minha mãe tentou me impedir – PAULO, VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO COM SUA FILHA!

– Ela não é mais minha filha! – Falou saindo da cozinha.

– Meu Deus! – Minha mãe caiu sobre a cadeira – Ele está louco, Benjamim! – Olhou suplicante para meu irmão.

– Mãe, me perdoa por causar tudo isso? – Me ajoelhei ficando frente a frente com ela.

– Você não tem que me pedir perdão por nada. – Acariciou meu rosto – A culpa não é sua de querer ser feliz.

– Não culpe meu pai, ele tem todo o direito de pensar e agir como quiser. 

– Mas ele não pode te abandonar, você continua sendo nossa filha. – Enxuguei suas lágrimas.

– Uma hora ou outra ele vai perceber que não está agindo de maneira correta. – Ben falou ainda assustado com toda aquela situação.

– Vocês vão pra onde? – Minha mãe perguntou preocupada.

– Vamos ficar em um hotel, amanhã mesmo já voltamos pra casa. – Levantei respirando fundo.

– Promete que vai se cuidar? – Ela segurou forte minha mão – Cuidar do seu bebê?

– Não se preocupe, nós vamos ficar bem! – A abracei com todas as minhas forças.

– Amanhã nós estaremos lá no hotel, antes de voltarem para São Paulo. – Benjamim falou. – Vou lá ver como ele está. – Saiu da cozinha sem nem sequer se despedir.

– Ele está assustado. – Mamãe falou ao ver minha decepção.

– Todos nós estamos. – Sorri de canto.

– Vamos? – Laura perguntou me olhando.

– Sim... – Olhei minha mãe – Espero vocês amanhã.

Enquanto me despedia de minha mãe, suas lágrimas banhavam seu rosto, me fazendo sentir novamente aquela dor tremenda. Eu não esperava essa reação de meu pai, mesmo conhecendo seu gênio forte e sua mania horrível de querer que tudo funcione sempre da maneira dele. Ser expulsa da minha própria casa, ser renegada por meu pai, ser julgada por aquele que eu sempre imaginei ter o maior apoio, confesso que me deixou emocionalmente abalada. Eu estava me sentindo cada dia pior, com pouquíssimas pessoas ao meu lado, venho me sentindo a cada dia mais perdida. Coloquei meus pés para fora daquela casa sentindo meu coração se despedaçar pouco a pouco, com uma sensação horrível de perder as pessoas mais importantes da minha vida. Por um momento eu imaginei que as coisas poderiam ser diferentes caso Vicente ainda estivesse aqui, se estivéssemos comemorando minha gravidez, depois de nossos primeiros anos de casados. Hoje eu estava passando por um dos momentos mais difíceis de toda a minha vida, enfrentando inúmeras dificuldades, aprendendo que na vida, nós que escolhemos nosso destino. 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

(Capítulo 62 – Abrindo mão)

Acordei sentindo uma dor incômoda na cabeça, assim como meu corpo que estava um pouco dolorido. Abri meus olhos sem nenhuma vontade, olhei para o lado e não consegui reconhecer aquele lugar, apenas Laura que estava ao meu lado.

– Alice? – Segurou minha mão – Como está se sentindo? – Perguntou preocupada.

– Onde nós estamos?

– No hospital.

– Hospital? – Perguntei confusa.

– Você desmaiou enquanto conversávamos. – Apertou um pouco mais minha mão – Aí eu te trouxe pra cá.

– Minha cabeça está doendo. – Reclamei – Eu quero sair daqui.

– Eu vou chamar o médico. – Laura saiu, mas logo voltou com um senhor ao seu lado.  

– Olá, Alice! – Ele me olhou simpático – Como está se sentindo?

– Estou sentindo um pouco de dor de cabeça. – Tentei sorrir – Quando posso ir embora?

– Você poderá ir assim que terminar esse soro. – Anotou algo em sua agenda – Os dois estão ótimos. – Sorriu me olhando.

– Os dois? – Perguntei confusa.

– Você e o seu bebê. – Respondeu como se fosse óbvio.

– Bebê? – Eu e Laura perguntamos juntas.

– Alice, você está grávida! – Senti um arrepio percorrer todo meu corpo.

– O senhor tá me falando que... – Respirei fundo – Que eu estou grávida?

– Você não sabia? – Apenas neguei com a cabeça – Assim que terminar sua medicação, me procure. – E saiu me deixando completamente sem chão.

– Ai, meu Deus! – Laura sentou na beirada da cama – Alice! – Eu estava em um completo estado de choque.  

– Isso não pode tá acontecendo, Laura! – A olhei com meus olhos cheios de lágrimas – Eu não sei... O que vai ser da minha vida a partir de agora?

– Seu soro acabou. – Consultou o aparelho – Vá se trocar, precisamos falar com seu médico.

Enquanto eu me trocava, eu pensava em absolutamente tudo, mas ainda com aquela mesma sensação de medo. Isso não estava acontecendo, não comigo, não no momento mais importante e decisivo da minha vida. O tempo inteiro eu pensava em como as coisas funcionariam a partir de agora, em como seria a minha vida com um bebê, em como mudaria minha relação com o mundo. Eu estava ficando louca, queria chorar, gritar, ligar para a minha mãe e pedir colo, mas de nada adiantaria. Agora é hora de pagar por minha irresponsabilidade e tentar colocar tudo em ordem, mesmo eu estando tão perdida. Depois de pronta, segui com Laura até a sala do medico que estava me atendendo, com certeza eu tomaria um banho de realidade nesse momento. Ele me fez muitas perguntas, me encaminhou para um obstetra, me recomendou vários cuidados, enquanto eu apenas ouvia calada. Ele foi extremamente cuidadoso comigo, com certeza percebeu que eu não esperava por uma notícia como aquela. Depois de pegar o encaminhamento, receber alguns conselhos, ele me entregou minha alta e voltamos para casa. Durante todo o percurso, eu permaneci calada, enquanto tentava digerir as palavras do médico sobre minha gravidez. Depois de quase uma hora, conseguimos finalmente chegar ao nosso condomínio, eu estava me sentindo exausta.

– Amanhã você vai conversar com o Bruno? – Laura perguntou quando entramos. 

– Acho que sim. – Respondi sem muita certeza das minhas palavras – Eu não sei como vou falar com ele sobre esse assunto.

– E Luan? – Sentou ao meu lado no sofá – Quando vai contar pra ele?

– Eu não quero nem olhar pra cara dele, quem dirá falar sobre um filho. – Respondi sentindo meus olhos marejados.

– Mas ele tem o direito de saber. – Tentou me convencer.

– Laura, eu preciso de um tempo só pra mim. – A olhei – Preciso organizar minha vida, mas eu não quero Luan ao meu lado nesse momento.

– Tem certeza?

– Absoluta! – Respondi rápido – Você pode me ajudar com isso?

– E quando que eu não te ajudaria com algo? – Segurou minha mão – Eu não prometi que estaria ao seu lado em todos os momentos?

– Eu estou com muito medo. – A abracei chorando.

– Eu estou aqui com você. – Desfez o abraço – Vamos enfrentar essa situação como sempre fizemos.

– Juntas?

– Juntas! – Me abraçou novamente.

Laura preparou um jantar pra gente, mas claro que eu não consegui comer, os enjoos aumentaram ainda mais. Depois de longos minutos de conversa, preferi ir dormir, eu precisava descansar desse dia conturbado. Enquanto eu tomava um banho demorado, pela primeira vez eu pensei na alegria de ser mãe, tive contato com meu bebê.

– Desculpa por tudo isso? – Alisei minha barriga – A mamãe tá muito assustada, mas não quero te passar nada de ruim. – Chorei sentindo um forte arrepio percorrer meu corpo – Você me ajuda a não desistir?

Depois de conversar um pouco com ele, coloquei um pijama bastante confortável e pedi a Deus sabedoria para lidar com toda aquela situação. Pensei em meus pais, em como eles reagiriam a essa surpresa, como meu pai se comportaria ao se deparar com minha gravidez. Pensei também em Luan, na conversa que tivemos sobre filhos, em como ele se sentiria feliz em saber que realizaria seu maior sonho. Tudo o que eu mais desejava, era poder receber essa notícia em outra circunstância, em um momento em que tudo estivesse bem entre nós dois. Perdida em meus pensamentos, acabei caindo num sono profundo, acordando apenas com meu celular despertando insistentemente. Levantei me sentindo um pouco mais disposta, senti o cheiro bom do café de Maria, fazendo minha barriga roncar de fome. Calcei minhas pantufas, amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo e segui ara a cozinha, onde encontrei Laura já de pé.

– Bom dia! – Cheguei com uma cara inchada.

– Bom dia, bela adormecida! – Laura brincou me olhando.

– Bom dia, flor do dia! – Maria me abraçou carinhosa – Que carinha de choro é essa?

– Saudades da minha mãe. – Respondi tentando não tocar no real motivo do meu choro – Estou com muita fome. – Peguei minha caneca.

– Vou te servir agora mesmo. – Sorriu me olhando – Olha o que tem aqui. – Me mostrou uma badeja quentinha de pães de queijo.

– Ai, que sonho! – Coloquei as mãos na boca – Você é um anjo, Maria!

– Vai à agência hoje? – Laura perguntou sentando ao meu lado.

– Uhum... – Respondi enquanto comia – Você pode me dar uma carona? – Ela apenas concordou com a cabeça.

– Tem certeza que está disposta a ir hoje? – Perguntou preocupada.

– Preciso conversar logo com Bruno.

Depois de devorar vários pãezinhos, fui me trocar rapidamente, pedi proteção a Deus e segui com Laura até a agência. Eu estava nervosa, tinha medo de perder as melhores oportunidades da minha vida, mas era preciso fazer isso o quanto antes. Assim que entrei na agência, fui direto para a sala de Bruno, enquanto eu tentava tirar coragem para contar a ele sobre minha gravidez.

– Posso entrar? – Perguntei batendo na porta entreaberta.

– Claro, entre. – Respondeu sorrindo.

– Bruno, eu preciso conversar com você. – Falei sentando. 

– O que aconteceu, Alice? – Perguntou calmo.

– Aconteceu algo que eu não esperava nesse momento... – Tentei falar – Algo que me deixou bastante confusa, com medo. – Ele me incentivou a continuar. – Eu estou grávida.

– Grávida? – Me olhou surpreso – Parabéns, Alice! – Sorriu me passando sinceridade, mas eu estava me sentindo perdida.

– Eu estou te contando, pois sei que essa gravidez não planejada vai atrapalhar meu futuro aqui na agência. – Enxuguei uma lágrima que acabou escorrendo sobre meu rosto – Eu sei que tudo vai mudar, sei que você pode até rescindir meu contrato. – Eu estava com muito medo.

– Eu jamais faria isso com uma funcionaria tão boa como você. – Falou me pegando de surpresa – É claro que as coisas vão mudar, infelizmente eu terei que colocar alguém no seu lugar para a ação no Canadá.

– A viagem onde seria minha consagração como fotografa. – Falei triste.

– Mas você ainda terá muitas oportunidades de realizar esse sonho. – Tentou me tranquilizar – Você é uma excelente funcionaria, uma profissional completa, tem tudo o que uma agência de fotografia sempre sonhou.

– E como ficará minha situação daqui pra frente? – O olhei apreensiva.

– Você vai continuará fazendo o seu trabalho como sempre fez. – Concordei com a cabeça – Até que seja preciso você tirar licença maternidade.

– E quando acabar meu contrato?

– Alice, você tem todas as chances de continuar com a gente após o término do seu contrato. – Afirmou – Nós não queremos perder você.

– Você não sabe o quanto me deixa aliviada saber disso. – Respondi ainda meio perdida.

– Bom, agora tirando a máscara de chefe e colocando a máscara de amigo. – Segurou minha mão – Ás vezes, precisamos renunciar algumas coisas, para que possamos conquistar outras. – O olhei com atenção – Eu sei que você está confusa, com medo, mas Deus não te daria essa benção sem um bom motivo pra isso. – Segurou mais forte minha mão – Se você está abrindo mão de algo tão importante hoje, pode ter certeza que tudo fará bastante sentido lá na frente.

– É uma grande responsabilidade. – O olhei sem aguentar segurar minhas lágrimas.

– Mas Deus te dará sabedoria para lidar com toda essa situação.

– É tudo o que eu mais espero... – Respirei fundo – Bruno, obrigada por sua confiança no meu trabalho, mas principalmente, por sua amizade e companheirismo.

– Não me agradeça, só continue seguindo em frente, pois você é capaz de conquistar tudo o que quiser.

Bruno se mostrou solidário com minha situação, me fez entender que meu sonho não acaba ali, mas ele continua correndo sobre minhas veias. Confesso que me senti bem mais confiante depois daquela conversa com meu chefe e amigo, eu sabia que daqui pra frente eu teria que abrir mão de muitas coisas, mas era e sempre será por uma boa causa. O agradeci mais uma vez por esse tempo que ele tirou pra mim, ele me pediu que eu voltasse pra casa e descansasse até a segunda-feira. Sai de sua sala me sentindo mais leve, pelo menos esse problema já estava resolvido e agora eu só precisaria me acostumar com as mudanças.

– Meninas, eu não estou me sentindo muito bem. – Conversei com Marina e Sthé que me olhavam atentas – Vou precisar fazer uns exames, então só volto na segunda-feira.

– O que aconteceu? – Mari perguntou preocupada.

– É só para tratar minha enxaqueca, estou sentindo muitas dores ultimamente. – Não queria contar agora sobre minha gravidez – Não precisam se preocupar.

– Espero que você fique boa logo. – Sthé falou carinhosa.

– Obrigada, minhas meninas! – Abracei as duas.

Tentei organizar tudo, peguei minhas coisas, me despedi das meninas e segui para a minha casa. Vi um recado de Maria avisando que precisou sair mais cedo, mas que deixou tudo bem organizado e o almoço pronto. Tomei um banho demorado, coloquei uma roupa confortável, comi alguma coisa e aproveitei para descansar um pouco. Eu quase não consegui dormir essa noite, meus pensamentos estavam confusos demais, assim como meu corpo que sentia os efeitos de toda essa loucura. Liguei para o consultório do obstetra recomendado pelo médico que me atendeu no dia anterior, falei com sua secretária e marquei uma consulta para a terça-feira da semana seguinte. Agora eu precisava cuidar do meu bebê, cuidar de mim, colocar minha vida em ordem e tentar me adaptar a todas essas mudanças. Acabei dormindo a tarde inteira, eu estava me sentindo tão cansada, que nem me dei conta das horas e só acordei quando Laura chegou.

– Voltou mais cedo pra casa? – Ela perguntou beijando o topo da minha cabeça.

– Bruno pediu que eu voltasse pra casa. – A olhei ainda tentando acordar – Nossa, eu estou muito cansada.

– E como foi?

– Ele disse que eu não perderia meu cargo, mas que infelizmente eu teria que abrir mão de algumas coisas. – Deitei no sofá – Ele foi muito compreensivo.

– Você ainda terá muitas chances de concretizar seus sonhos como fotografa.

– Ele me disse a mesma coisa. – Sorri a olhando – Terei que abrir mão por algo melhor.

– É isso mesmo. – Sentou ao meu lado – Esse bebê só vai nos trazer alegrias. – Fez carinho em minha barriga.

– Eu quero ir na casa dos meus pais. – Respirei fundo – Eles precisam saber.

– Você tem certeza que quer fazer isso agora? – Perguntou preocupada.

– Eu não vou conseguir esconder isso por muito tempo, eu preciso da minha mãe ao meu lado.

– Quando você quer ir lá?

 – Eu quero ir amanhã. 

– Eu vou com você. 

– Não precisa Lau, eu posso ir sozinha...

– Você está louca? – Me interrompeu – Não lembra o que seu pai fez na ultima vez que você apareceu por lá?

– Eu não acredito que ele faria isso novamente.

– Eu vou com você, ok?

Não tinha como discutir, ela não me deixaria ir sozinha, principalmente sabendo que eu teria que enfrentar meu pai. Enquanto Laura preparava algo pra gente jantar, eu aproveitei para comprar as passagens, no dia seguinte nós sairíamos cedo. Eu precisava de muita coragem para dar mais esse passo, porque eu sabia que as coisas seriam ainda mais difíceis daqui pra frente. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Capítulo 61 – Conturbada realidade)

(Luan Narrando)

Uma semana se passou desde que Camila voltou para o Brasil, aproveitei que passaria de quinta-feira até domingo na estrada, para tentar encontrar uma maneira de resolver toda essa situação. Camila me ligava todos os dias, mas foram poucas as vezes que eu atendi ao telefone e conversei com ela. Alice também chegou a me ligar umas duas ou três vezes, ela parecia desconfiada de que algo estava acontecendo, mas não me cobrava absolutamente nada. Eu estava morrendo de saudade dela, tinha vontade de contar tudo a ela, desabafar, abrir meu coração. Porém eu lembrava que eu estava correndo o risco de perdê-la mais uma vez, de magoá-la, coisa que eu não queria e prometi não fazer nunca mais. Tentei me concentrar no meu trabalho, queria ocupar minha cabeça com algo, mas as coisas pareciam piorar a cada instante. Depois de concluir com sucesso nosso ultimo show da semana, eu estava indo pra casa, mas encontrei alguns fãs no aeroporto. Eu fui até eles na intenção de apenas receber carinho, mas eles me surpreenderam ao comentar sobre a volta de Camila.

– Não estamos mais juntos... – Confessei me despedindo deles.

Enquanto seguíamos para São Paulo, fechei meus olhos na tentativa de me proteger dessa loucura. Eu estava me sentindo ainda mais sufocado, eu precisava urgentemente tomar uma atitude, eu não aguentava mais ter que me deparar com essa situação todos os dias. Olhei meu celular, li minha última conversa com Alice por mensagem, me deparando com uma foto que tiramos na nossa viagem. Seu sorriso era o mais lindo de todos, aqueles olhos encantadores, seu cabelo, sua pele macia que me deixava louco. Eu não conseguiria passar mais nem um minuto sem tê-la comigo, ela era tudo o que eu mais precisava naquele momento, eu não poderia tomar outra decisão. Assim que coloquei meus pés em São Paulo, pedi que me levassem até o condomínio de Alice, ainda era madrugada, mas eu precisava vê-la. Disquei seu número que eu sabia decorado, esperei ele chamar quatro vezes e ela me atendeu com uma voz sonolenta.

– Amor... – A chamei com dó por ter que acordá-la.  

– Luan? – Parecia confusa – Tá tudo bem?

– Eu preciso de você. – Respondi rápido.

– Onde você está? – Perguntou preocupada – Que horas são?

– Eu estou aqui na frente do seu condomínio.

– Aqui? – Perguntou agora um pouco mais alto – Sobe que estou te esperando.

Não respondi mais nada, apenas falei com o porteiro e ele liberou minha entrada, enquanto o motorista seguia para casa. Subi rapidamente, eu sabia que era errado o que eu estava fazendo, mas eu não suportava mais ficar longe dela. Quando cheguei ao andar de seu apartamento, peguei o celular para ligar e avisar, mas ela abriu a porta rapidamente. Ela tinha uma carinha de sono linda, parecia confusa com toda aquela situação, mas me estendeu a mão para que eu entrasse.

– O que aconteceu, amor? – Perguntou me olhando – Você tá bem? – Apenas a abracei forte.

– Me abraça forte. – Pedi enquanto ela me acolhia em seus braços – Só me abraça. – E assim passamos alguns segundos.

– Vem, vamos deitar. – Me olhou segurando minha mão.

– Desculpa ter que te incomodar essa hora. – Falei quando entramos em seu quarto.

– Não tem que me pedir desculpas. – Arrumou sua cama – Eu só fiquei preocupada.

– Tá tudo bem. – Falei sem certeza nenhuma das minhas palavras.

– Quer tomar um banho? – Perguntou cuidadosa – Comer alguma coisa?

– Acho que só um banho. – Respondi a segurando pela cintura – Eu não te mereço... – Ela me olhou confusa – Não mereço a mulher maravilhosa que você é.

– Que conversa é essa? – Colocou seus braços ao redor do meu pescoço – Não estou entendendo.

– Me desculpa?

– Te desculpar? – Beijou meu rosto – Não tenho que te desculpar por nada, amor.

– Como é bom sentir seu cheiro. – Cheirei seu pescoço – Eu estava morrendo de saudade de você.

– Por que você estava tão distante? – Perguntou segurando meu rosto – Não faz ideia do quanto foi ruim ficar longe de ti.

– Aquela minha camisa ainda está aí? – Perguntei fugindo completamente do assunto.

– Está sim. – Respondeu indo até seu guarda-roupa – Aqui. – A agradeci com um selinho e segui para o banheiro.

Tomei um banho demorado, coloquei minha camisa, enquanto Alice lutava para continuar acordada. Ela me chamou sorrindo para que eu deitasse ao seu lado, não sei como era possível, mas ela estava ainda mais linda. Peguei um cobertor maior, deitei com minha cabeça sobre sua barriga e ela soltou uma risada gostosa.

– O que foi? – Perguntei rindo.

– Senti uma coisa boa agora. – Confessou fazendo carinho em meu cabelo – É tão bom ter você aqui comigo.

– Eu te amo, sabia? – Beijei sua barriga – Te amo mais do que a mim mesmo!

– Eu te amo ainda mais! – Sorriu me puxando para mais perto – Quer conversar?

– Não, eu só quero ficar quietinho aqui com você. – Escondi meu rosto em seu pescoço.

Enquanto eu sentia seus carinhos, aproveitei para matar um pouco da saudade que eu sentia dela. Acabamos pegando no sono, por mim eu passaria o restante da minha vida inteira ali, mas eu sabia que logo eu teria que voltar para minha conturbada realidade.

(Alice Narrando)

Acordei no dia seguinte sentindo meu celular vibrando, abri meus olhos com um pouco de dificuldade, procurei Luan, mas ele não estava mais na cama. Tentei levantar ainda tonta de sono, fui até o banheiro, lavei meu rosto e segui para a cozinha.

– Bom dia, Maria! – A olhei com um meio sorriso.

– Bom dia, Alice! – Colocou os pães na mesa.

– Maria, você viu Luan? – Perguntei sentando para comer alguma coisa.

– Encontrei quando eu estava chegando. – Me serviu uma caneca de café – Ele estava saindo. 

– Saindo? – Perguntei confusa – Luan tá cada dia mais complicado. – Neguei com a cabeça.

– Vocês brigaram? – Ela perguntou me olhando.

– Não, ele dormiu aqui ontem. – Respondi de boca cheia – Mas não imaginava que ele poderia ir embora tão cedo.

Continuamos conversando, enquanto eu comia tudo o que Maria colocava em minha frente. Mesmo assim eu não conseguia tirar Luan da minha cabeça, essa confusão que ele está causando em nós dois, literalmente estava me matando. Laura saiu de seu quarto, tomou café conosco e eu pedi que ela me esperasse, pois precisava de uma carona até a agência. Arrumei-me rapidamente, peguei minhas coisas e voltei para a cozinha, onde Laura ainda comia.

– Vamos? – Perguntei a olhando.

– Uhum! – Respondeu tomando mais um pouco de café.

– Beijo, Maria! – Beijei seu rosto.

– Beijo, bom trabalho! – Sorriu simpática.

– O que aconteceu ontem à noite? – Laura perguntou enquanto dirigia.

– Luan que chegou de madrugada.

– Está tudo bem? – Me olhou curiosa.

– Ele chegou, não quis conversar, me pediu desculpas... – Respondi pensativa – Disse que não me merecia.

– O que será que ele tem?

– Algo está acontecendo, mas ele não se abre comigo. – Falei impaciente – Queria poder ajudar de alguma maneira.

– Dê um tempo pra ele, quem sabe agora ele não resolva tudo?

– Eu espero mesmo que isso aconteça.

Seguimos conversando, ela me contou sobre que seus pais nos chamaram para passar o final de ano com eles, com certeza seria maravilhoso. Dezembro era um mês de muitas coisas boas, eu torcia para que esse ano as coisas não fossem diferentes. Trabalhei o dia todo, além do final de semana que eu fiz muitos extras, eu estava me sentindo exausta.

Dias depois...

Era quinta-feira, três dias depois que Luan dormiu no meu apartamento, mas nem sequer ele se deu ao trabalho de me ligar. Apenas mandou mensagem, avisando que daria um jeito de me ver nesse final de semana, mas tudo isso estava me deixando louca. Aproveitei meu intervalo de almoço e liguei para Bruna, pedi que ela me encontrasse no mesmo shopping onde Laura trabalhava. Eu precisava conversar com ela, precisava entender o que estava acontecendo, com certeza ela teria algo para me falar. Consegui sair um pouco mais cedo da agência, pedi um táxi e corri para encontrar minha amiga.

– Cunhada, que saudade de você! – Bruna me abraçou – Como andam as coisas? – Sentamos na praça de alimentação.

– Eu que quero saber como andam as coisas lá na sua casa. – Tomei um pouco do meu suco.

– Como assim? – Perguntou confusa.

– O que está acontecendo com seu irmão, Bruna? – Fui direto ao ponto – Tem quase duas semanas que Luan tá muito estranho, eu não sei o que fazer. – Ela engoliu o seco.

– Ele não conversou com você?

– Conversar sobre o que? – Perguntei agoniada – Você sabe de alguma coisa que ele não quer me contar?

– Eu não quero me envolver nessa história...

– Você vai fazer o mesmo que ele? – A interrompi – Agora deu de esconder as coisas de mim?

– Luan é um idiota! – Ela falou com raiva – Você promete que vai me ouvir até o final? – Apenas concordei com a cabeça. – Luan tinha uma namorada antes de vocês se conhecerem. – Pareceu procurar as palavras – Certo dia ela decidiu ir estudar no EUA, isso aconteceu dois meses antes dele te conhecer.

– Ele nunca me contou isso. – Me senti mal com aquela situação. 

– Talvez ele não tenha te contado... – Me olhou receosa – Porque eles não chegaram a terminar o namoro.

– O que? – Perguntei incrédula – Como assim eles não terminaram o namoro?

– Eles continuaram conversando por um tempo, até você aparecer na vida dele. – Respondeu nervosa – Ele não tinha planos de se envolver com ninguém.

– E o que aconteceu? – A olhei com medo de sua resposta.

– Ela voltou para o Brasil.

– Voltou? – Senti o mundo desabar sobre minha cabeça.

– Voltou na segunda-feira que vocês teriam um jantar no seu apartamento.

– Por isso ele mentiu pra mim. – Neguei com a cabeça – Disse que tinha outro compromisso importante pra resolver.

– Ele te ama muito, Alice!  

– Como ele me ama? – Perguntei nervosa – Escondendo de mim um relacionamento que eu nunca imaginei que poderia existir?

– Ele tá se sentindo muito perdido, tá confuso. – Tentou defender o irmão – Ele errou, mas está arrependido.

– Ele está com ela? – Perguntei sentindo uma dor me invadir.

– Não, ele pediu um tempo para colocar as coisas em ordem.

– Eu preciso ir embora... – Tentei falar ao sentir um enjoo fora do comum.

– Você não está em condições de ir embora sozinha. – Levantou comigo.

– Eu vou pra loja da Laura. – Espremi meus olhos.

– Tem certeza? – Me olhou preocupada – Eu posso te levar pra casa.

– Tenho... – Tentei falar enquanto segurava sua mão – Obrigada por conversar comigo. – A abracei – Eu te ligo.

Depois de me despedir de Bruna com mais um abraço, ela se foi, deixando em mim algo profundamente ruim. Senti vontade de chorar, de gritar de raiva, mas o que mais me incomodava era o enjoo que não passava por nada. Fui até o banheiro do shopping, lavei meu rosto, chorei como nunca e segui para a loja, onde com certeza eu ainda encontraria minha prima.

– Alice? – Laura se assustou quando me viu entrando com tudo na sua sala.

– Eu vou matar o Luan! – Gritei sentindo minhas lágrimas escorrerem sobre meus olhos.

– O que aconteceu? – Perguntou preocupada – Que raiva toda é essa?

Depois de sentar e tomar um copo com água, contei a ela tudo o que estava acontecendo. Todos os detalhes, da maneira como Bruna me contou, fazendo Laura se assustar com toda a seriedade da situação. Eu estava nervosa, me sentia extremamente mal com tudo aquilo, ainda estava com aquele forte enjoo e tive que sentar pra não cair.

– O Luan é um cretino! – Levantei andando de um lado para o outro – Como ele faz isso comigo? – Laura tentava me acalmar – Por que ele me escondeu isso? – Senti uma forte tontura, fazendo com que eu me apoiasse na porta.

– Alice? – Ouvi de longe a voz de Laura me chamar – Você está bem? – Não consegui ouvir mais nada, só senti o impacto do meu corpo contra o chão.

“A vida segue acontecendo nos detalhes, nos desvios, nas surpresas e nas alterações de rota que não são determinadas por você.” Eu ainda não sabia, mas uma grande surpresa me esperava.