segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

(Capítulo 73 – Feliz natal)


O meu sábado chegou lindo, era dia 23 de dezembro de 2017, estávamos prestes a colocar nossos pés em Florianópolis e viver um dos anos mais lindos de nossas vidas. Depois do que aconteceu na casa de Luan, eu tentei ao máximo não alimentar em meu coração, todas as palavras horríveis que Camila me disse. Eu queria esquecer aquele dia, queria apagar da minha memória e só guardar os momentos bons que ele me proporcionou. Eu estava feliz, animada com nossas festas de final de ano, pois minha família sabia muito bem aproveitar essas datas comemorativas. Tudo era muito mágico, nos traziam muitas coisas boas, uma energia maravilhosa. Óbvio que eu não estava completa, que ainda me faltavam algumas pessoas especiais, mas eu agradecia imensamente a Deus por tudo o que me aconteceu durante esse ano. O melhor de todos os presentes estava bem ali comigo, crescendo dia após dias dentro de mim, me alimentando uma esperança sobrenatural. Eu o amava, amava meu filho como nunca amei nada nem ninguém nessa vida. Ele me completava profundamente, fazia de mim uma pessoa melhor, me trazia felicidade, uma felicidade que eu estava aprendendo a conhecer e amar. Quando colocamos nossos pés no aeroporto, tio Ricardo estava nos esperando animado como sempre. Seguimos para sua casa conversando, ele não parava de dizer que tudo estava lindo para nossa noite de natal. Assim que chegamos na casa mais acolhedora do mundo, fomos maravilhosamente recebidas com muito amor por tia Lúcia e Gabi. Guardamos nossas coisas no quarto que foi carinhosamente preparado para nós duas, tomamos um banho, colocamos uma roupa confortável e voltamos para a sala.

– É tão bom ter vocês aqui! – Tia Lúcia nos abraçou com todo seu amor – A viagem foi cansativa?

– Foi até rápida. – Laura respondeu abraçando sua mãe.

– Seu namorado vem pra cá no réveillon, Laura? – Seu pai perguntou.

– Vem sim! – Respondeu animada.

– E Luan? – Gabi perguntou me olhando.

– Ele está passando o natal com a família. – Respondi um pouco incomodada.

– E vocês estão bem? – Ela insistiu.

– Será que nós poderíamos falar sobre isso depois? – Perguntei a ela.

– Vocês terminaram? – Pareceu decepcionada.

– Quer deixar sua prima em paz, Gabriela? – Ela não respondeu, apenas saiu correndo para o seu quarto.

– Eu acho que eu preciso conversar com ela. – Me senti culpada por causar aquela situação.

– Conversa, mas não fala do bebê. – Laura falou seguindo até a cozinha.

Gabi não sabia da minha gravidez, depois que Laura contou aos meus tios, eles decidiram guardar esse “segredo” por mais um tempo. Tanto por mim, quanto por sua vida como fã de Luan, ela poderia até contar a alguém e acabar causando uma grande confusão. Eu sabia que uma hora ou outra ela teria que saber, mas por enquanto, as coisas funcionariam melhor assim.

– Posso entrar? – Perguntei batendo na porta.

– Agora você quer conversar comigo? – Ela parecia chateada.

– Me desculpa? – Sentei ao seu lado na cama – Eu não quis ser grossa com você, nem nada do tipo.

– Então por que você não respondeu minha pergunta? – Me olhou com os olhinhos cheios de lágrimas.

– Nós não estamos tão bem como antes. – Respondi a olhando.

– É por conta da volta daquela ex-namorada dele?

– Talvez. – Respondi procurando as palavras certas – As coisas foram ficando meio complicadas pra gente.

– Foi por isso que nunca mais saiu nada sobre vocês. – Ela estava triste – Eu não quero que vocês terminem o namoro.

– Infelizmente as coisas nem sempre acontecem como a gente quer. – Enxuguei uma lágrima que caiu em seu rosto.

– Você não o ama mais?

– Se eu te contar que eu o amo ainda mais agora, você acreditaria?

– Eu não entendo... – Me olhou confusa. – Então por que vocês estão assim?

– Porque é tudo muito complicado, meu amor.

– Vocês que complicam tudo.

– Me desculpa por te decepcionar?

– Você ainda será muito feliz ao lado dele. – Ela me olhou carinhosa – Eu tenho certeza absoluta do que eu estou falando.

– Você tem?

– Eu ainda vou no casamento de vocês. – Falou me fazendo rir com sua inocência. – Vocês se amam e merecem ficar juntos pra sempre.

– Eu também acredito nisso. – Segurei sua mão – O que nasceu pra ser...

– Um dia acaba sendo. – Ela completou rindo.

– Obrigada por acreditar em nós dois, no nosso amor. – A olhei com carinho.

– Eu não sei o que está acontecendo, mas eu sei que tudo ficará bem novamente.

E então ela me abraçou com todo o seu amor, com sua luz, com aquela pureza de criança que encanta a todos. Eu não tinha certeza se tudo o que ela disse poderia um dia se concretizar, mas minha alma suplicava por isso. Depois da nossa maravilhosa conversa, voltamos para a sala, rindo e comentando sobre o que umas fãs fizeram no ultimo show de Luan. Aproveitamos para ajudar tia Lúcia a organizar a casa, pois no dia seguinte nós receberíamos o restante da família. Enquanto tio Ricardo e Gabi terminavam de limpar o jardim, fiquei conversando com minha tia e Laura na cozinha.

– E quando vai saber o sexo do bebê, Alice? – Minha tia perguntou.

– Próximo mês, tia. – Respondi sorrindo – Vou esperar Luan voltar das férias.

– Ele tira férias em janeiro?

– Sim, ele volta mais ou menos no meio do mês.

– É o tempo que você faz três meses, né? – Laura perguntou.

– Sim.

– E seu médico é bom?

– O primeiro médico que eu me consultei, era maravilhoso. – Respondi cortando uma cebola – Agora vou começar a ser acompanhada por uma médica.

– Mas por que mudou?

– A mãe de Luan pediu. – A olhei – É uma médica da família, tem esse lado de ser filho de um cantor famoso.

– Ah, entendi! – Ela concordou – Ela tem razão, porque não é todo médico que sabe lidar com isso.

– Sim, exatamente!

– E como vocês estão? – Ela perguntou me olhando – Como ele reagiu como tudo isso?

– Ele reagiu da melhor maneira possível. – Respondi rindo – Ele é completamente apaixonado por esse bebê.

– Não só pelo bebê. – Laura retrucou.

– Ah, disso a gente tem certeza. – Minha tia deu corda.

– Vocês, hein? – Comecei a rir – Eu não tenho dúvidas que Luan será um pai maravilhoso.

– Mas vocês dois estão bem? – Ela continuou.

– Ah, tia... – Procurei as palavras – As coisas estão meio confusas.

– O que está acontecendo? – Ela perguntou preocupada – Vocês parecem guardar um amor tão grande.

– Talvez esse amor que esteja nos segurando até agora.

– Mãe, eu quero água! – Gabi entrou bem na hora – Do que vocês estão falando?

– Estávamos comentando que eu nunca chorei ao cortar cebola.

– Eu choro. – Ela me olhou intrigada – Choro muito.

Continuamos conversando, agora com a presença de Gabriela, que não parava de falar um minuto. Ela tagarelava e olhava seu celular, que logo descobrimos que era por motivos de: “meu ídolo entrou no twitter”. Acabei dando uma olhadinha com ela, ele tentava inutilmente responder a todos, encantava as meninas com um simples “também te amo”. Eu me sentia agoniada por elas, por aquela esperança dele responder, dele ao menos ver alguma delas. Gabi falava com ele, com aquele olhar pidão de: “por favor, olha aqui pra mim”. Enquanto Gabi continuava presa naquele twitter, eu e Laura começamos a empacotar todos os presentes para a nossa noite de natal. E assim nós passamos quase o restante do dia, separando, empacotando e guardando os presentes. Quando nossa noite chegou, aproveitei cada momento ao lado da minha família, daquelas pessoas que me traziam tanta felicidade. Ainda era um pouco cedo quando decidimos nos recolher, pois o dia seguinte seria bastante cansativo e animado. O cansaço começou a tomar meu corpo, eu estava sentindo uma tontura, me fazendo dormir logo depois de um banho quente.

O dia seguinte chegou lindo, estávamos animados com esse dia tão especial para todos. Conseguimos organizar o restante da casa logo pela manhã, deixando tudo maravilhosamente lindo. Aos poucos alguns tios, primos, amigos foram chegando, carregados de presentes e uma alegria que contagiava a todos. Era tão bom reencontrar aqueles rostos conhecidos, aquelas pessoas que fizeram e continuam fazendo parte da minha vida. Alguns deles continuariam com a gente para o réveillon, outros apenas passariam o natal e voltariam para suas casas. Assim que terminamos de preparar toda a ceia com a ajuda de minhas tias, todos seguiram para seus quartos. Era hora de colocar nossa melhor roupa, assim como nosso melhor sorriso. Depois de prontos, meus tios bebiam um vinho na sala, enquanto minha tia cuidadosamente terminava de colocar as comidas na enorme mesa do jantar.

Quando o relógio bateu 00h00, nós sentamos todos ao redor da mesa e fizemos uma oração de agradecimento. Naquele momento, eu aproveitei para agradecer imensamente a Deus, mas também para pedir por meus pais. “Que a magia do natal, possa invadir o coração do meu pai.” Era o que eu mais pedia, para que ele se tornasse alguém melhor, que aceitasse minha felicidade. “Que próximo ano eu possa estar ao redor de toda a minha família.” Pedi com todas as minhas forças. Acabei lembrando automaticamente de Luan, pedi por ele, por nosso relacionamento e por tudo o que sentimos um pelo outro. Percebi que eu chorava, quando senti os braços de Laura me acolherem amorosamente, fazendo todos os meus medos irem embora.

– Você não está sozinha. – Ela falou no meu ouvido.

Finalmente, depois de alguns breves minutos, nós começamos a nos servir daquela maravilhosa ceia de natal. Tudo era uma grande felicidade quando nossa família estava reunida, porque colocávamos bons motivos em tudo. Depois do nosso jantar, seguimos todos para a sala, pois era chegada a hora da troca dos presentes. Aquele momento era o mais divertido de todos, pois nós comprávamos presentes e na hora tirávamos o nome de uma das pessoas. Por exemplo: se eu comprei uma camisola e tirei o meu tio, ele tinha que ficar com a camisola. Eu acabei ganhando algo que eu simplesmente amava, pantufas no formato de unicórnio. Era quase 3h00 da manhã quando terminamos aquela farra, com todos já exaustos de tanto rir um dos outros. Percebi que eu tinha esquecido completamente do meu celular, procurei em alguns lugares da casa, mas acabei encontrando dentro do banheiro do meu quarto. Vi algumas ligações perdidas da minha mãe, outras de benjamim, assim como as de Luan. Comecei ligando para a minha mãe, conversamos por alguns minutos, até ela começar a chorar e passar para o meu irmão. Ele me avisou que passaria o réveillon comigo, que aquele natal foi o pior de toda a sua vida e que tudo precisaria mudar. Por ultimo liguei para Luan, seu celular chamou duas, três vezes, na quarta ele atendeu.

– Boa noite! – Ele atendeu carinhoso.

– Quase bom dia... – Falei rindo – Me desculpa a demora pra ligar, mas eu esqueci completamente meu celular.

– Como está passando seu natal?

– Graças a Deus, tudo está correndo maravilhosamente bem! – Respondi calma – Mas sabe quando você sente que está faltando algo?

– Eu estou sentindo isso nesse momento. – Respirou fundo – Tudo o que eu mais queria, com toda certeza, era ter vocês aqui comigo.

– Sonho com um natal que eu possa ter você, meus pais, meu irmão, nosso filho. – Confessei triste.

– Quem sabe no próximo ano nosso natal não seja assim? – Tentou me animar.

– Você acredita nisso? – Perguntei suplicando por uma resposta positiva.

– Eu acredito muito nisso. – Respondeu confiante.

– Então eu confio em você.

– Isso me deixa muito feliz... – Sorriu – E como está o nosso bebê?

– Ele anda muito comportado esses dias. – Respondi fazendo carinho em minha barriga – Nem me fez enjoar tanto.

– Você tá com sono? – Perguntou ao perceber minha voz de cansaço.

– Eu estou me sentindo muito cansada.

– Então é melhor você ir dormir, porque daqui a pouco amanhece o dia. – Falou preocupado.

– Eu acho que é isso que eu vou fazer.

– Cuida de vocês pra mim? – Ele pediu carinhoso.

– Não se preocupe, eu vou cuidar. – Silenciei.

– Alice? – Ele me chamou depois de alguns segundos de silêncio.

– Oi!

– Eu amo vocês! – Sorri ao ouvir sua confissão.

– Nós te amamos, muito! – Respondi com toda a certeza do meu coração.

– Promete que não vai se esquecer da gente?

– Jamais eu poderia esquecer. – Respirei fundo – Se cuida.

– Feliz natal pra vocês!

– Feliz natal, papai! – Sorri.

E assim encerramos mais uma ligação entre tantas outras que eu guardei na minha memória. Se existia uma coisa de que eu não tinha dúvidas, era do nosso amor, da ligação que existia entre nossas almas. E conforme nosso filho crescia dentro de mim, mais forte nosso amor se tornava, mais esperança eu tinha de dias de completa realização entre nós.

(Capítulo 72 – Encontro desagradável)


Dias depois...

O mês de dezembro estava correndo, cheguei à minha oitava semana de gestação, enquanto eu me sentia cada dia mais enjoada. Era uma quinta-feira ensolarada, estávamos preparando as coisas para o nosso natal em Florianópolis com os pais de Laura. Eu estava muito ansiosa, queria poder passar esse tempo com minha família, ao lado das pessoas que eu tanto amo. O que mais me maltratava, com toda certeza era saber que eu não teria meus pais ao meu lado, mas talvez as coisas tivessem que acontecer dessa maneira. Enquanto eu organizava um material para entregar para Bruno no dia seguinte, recebi uma ligação muito especial.

– Oi, princesa! – Atendi animada.

– Como está a cunhadinha mais linda do mundo? – Bruna perguntou animada.

– Enjoada talvez seja a palavra certa. – Respondi rindo.

– Já tomou alguma coisa para esses enjoos?

– É tudo o que eu mais faço na vida.

– Eu queria te fazer um convite.

– Convite?

– É mais um convite da minha mãe. – Respondeu rindo – Ela quer que você venha almoçar conosco.

– Sério?

– E ela quer te mostrar algo muito lindo.

– Eu vou só terminar de organizar um material da agência.

– Você vem mesmo?

– Vou sim. – Sorri – Vai ser ótimo almoçar com vocês.

– Então estamos te esperando.

– Tá bom, beijo!

– Beijo!

Consegui terminar tudo em meia hora, tomei um banho, coloquei uma roupa confortável e liguei para Laura avisando que eu estava indo até a casa de Luan. Enquanto o táxi seguia para o meu destino, aproveitei para conversar com Benjamim por mensagens. Ele me contou que esses dias pegou meu pai chorando, que queria muito que nossa família estivesse unida nesse final de ano. Eu sinceramente não sei como ele, um homem tão tradicional, está lidando com uma situação como essa. Ter seus filhos longe, sempre foi um castigo para o meu pai. Imagino que tudo esteja sendo realmente complicado pra ele, talvez se ele aceitasse um pouco nossas decisões, as coisas poderiam ser completamente diferentes. Não demorou muito para que meus eu pisasse novamente naquele condomínio luxuoso, um lugar onde me trazia ótimas lembranças.

– É você mesmo? – Bruna me recebeu brincando – Mãe, Alice chegou!

– Oi, Alice! – Dona Mari apareceu sorridente na sala – Que bom que aceitou nosso convite!

– Como eu poderia recusar? – Sorri a abraçando – Muito obrigada!

– Venham me ajudar. – Ela nos chamou voltando para a cozinha – Estou terminando nosso almoço.

– Ainda está muito enjoada? – Bruna perguntou me oferecendo uma maçã.

– Melhorei um pouco. – Respondi sentando – Estou parecendo uma velha. – Falei rindo – Não posso ver um banquinho na minha frente, que já quero sentar.  

– Completamente normal. – Dona Mari falou sorrindo – Eu também era assim quando engravidei.

– Isso é terrível! – Reclamei comendo minha maçã.

Não demorou muito para que estivéssemos sentadas ao redor da mesa, nos deliciando do maravilhoso almoço de “minha sogra”. Conversamos sobre vários assuntos, mas o principal deles, com toda certeza era sobre minha gestação. O tempo inteiro Bruna me perguntava sobre o bebê, sobre meus enjoos, minhas consultas e tantas outras coisas que me faziam rir. Elas pareciam felizes com minha presença, eu me sentia bem em estar ali com as outras duas mulheres da vida de Luan. Eu sentia como se estivesse mesmo em família, recebia muito carinho delas, era acolhedor.

– Você vem passar o natal com a gente? – Dona Mari perguntou animada.

– Eu adoraria, mas meus tios estão nos esperando em Florianópolis pra passar as festas de fim de ano.

– Florianópolis é linda. – Bruna falou – Mas seria maravilhoso ter você aqui com a gente.

– Quem sabe no próximo ano? – Perguntei sorrindo – Já com a presença ilustre do nosso mascote. – As duas riram concordando.

– Imagina que linda ela de mamãe noel?

– Ela? – Eu e dona Mari perguntamos juntas.

– Eu tenho certeza que será uma menina. – Bruna respondeu dando de ombros.

– Será que vem uma menininha? – Dona Mari perguntou quando terminamos nosso almoço – Seria maravilhoso! 

– A senhora se ver avó de menina ou menino? – Perguntei rindo.

– Confesso que dos dois. – Respondeu tirando a mesa – Eu só quero que venha com saúde, porque amo vai ter de sobra.

Depois do nosso maravilhoso almoço, dona Mari me chamou para olhar uma touca de crochê que ela mesma estava preparando para o meu bebê. Era linda, tão delicada e bem feita, fiquei extremamente emocionada com tamanho carinho de sua parte. Ela acabou começando uma mantinha, para que eu continuasse, me fazendo abrir um sorriso enorme. Bruna admitia que era péssima para o crochê, disse que preferia ficar apenas me olhando errar e refazer a mantinha.

(Luan narrando)

Depois de duas semanas corridas de trabalho, finalmente eu estava voltando para a minha casa. Tudo o que eu mais precisava nesse momento era da minha cama, da comida da minha mãe, de um telefonema para ouvir a voz da mulher da minha vida. Confesso que eu estava morrendo de saudade de Alice, queria saber do nosso filho, se tudo estava bem com os dois. Como era bom poder novamente colocar os pés no meu condomínio, mas acabei tendo uma surpresa antes de entrar em casa.

– Luan? – Eu conhecia bem essa voz.

– Oi, Camila! – Respondi me virando.

– Tudo bem? – Ela perguntou se aproximando.

– O que você tá fazendo aqui? – Ignorei sua pergunta.

– Eu queria me desculpar com você. – Respondeu séria – Eu sei que eu agi de maneira infantil na última vez que nos encontramos.

– Que bom que você reconhece.

– Eu tanto reconheço que estou aqui, te pedindo desculpas. – Me olhou com aquela cara de súplica que só ela sabia fazer.

– Não precisa fazer essa cara. – Tombei a cabeça para o lado.

– Estou perdoada?

– Vamos esquecer isso. – Respondi calmo – Tá desculpada. – Ela apenas me agradeceu com um abraço.

– Posso entrar pra falar com sua mãe? – Perguntou animada.

– É... claro! – Respondi seguindo ao lado dela.

Era óbvio que aquela situação me deixava desconfortável, eu não queria que Camila pensasse que as coisas poderiam mudar com um pedido de desculpas. Enquanto entravamos na minha casa, ela me lembrou de uma história muito engraçada que aconteceu na estrada, quando ainda estávamos juntos.

– Você se lembra? – Ela perguntou rindo.

– E como eu poderia não lembrar? – Respondi gargalhando, mas parei ao perceber que o que eu mais temia, estava prestes a acontecer. 

– Oi, filho! – Ela sorriu vindo em minha direção – Camila? – Ela a olhou surpresa.

– Tudo bem com a senhora? – A cumprimentou com um abraço.

– Oi, piroca! – Abracei minha irmã que falou apenas um “não acredito” no meu ouvido.

– Oi, eu não sabia que você estava aqui. – Me aproximei de Alice – Tudo bem?

– Estou bem! – Respondeu calma.

– Nós convidamos a Alice pra almoçar com a gente. – Bruna falou em alto e bom som para que Camila escutasse – E aprender a fazer crochê.

– Bom, eu acho que chegou minha hora de ir. – Alice falou pegando sua bolsa.

– Você não precisa ir agora. – Falei a olhando.

– Obrigada pelo convite, dona Mari! – A agradeci com um abraço.

– Quero que volte sempre que quiser. – Sorriu.

– Então é você que está grávida do meu namorado? – Camila perguntou quando Alice estava prestes a passar por ela.

– O que? – Alice se virou a olhando.

– Você é surda?

– Vem, Alice! – Bruna tentou tirá-la dali.

– Não vai responder? – Camila continuou.

– Você me conhece? – Alice perguntou a olhando novamente – Porque até uns dias trás eu nem sequer sabia da sua existência!

– Não conheço, nem tenho interesse em conhecer. – Falou cruzando os braços.

– Então não se atreva a falar o que você não sabe.

– Por que você não deixa Luan em paz? – Perguntou autoritária – Por que você ainda está aqui tentando acabar com o meu namoro?

– Camila, deixa de ser ridícula! – Bruna a olhou com raiva – Você esqueceu que Luan terminou esse namoro desde que você chegou?

– Você deveria ficar do meu lado. – Camila a olhou decepcionada.

– Parem com isso! – Minha mãe tentava acabar com a discussão. 

– Talvez porque agora exista um elo entre nós dois. – Respondeu com convicção – Existe amor, coisa que você não sabe o que é. – E quando ela foi sair, Camila surpreendeu a todos com seu nível máximo de loucura.

– Quem garante que esse filho é dele? – Alice parou respirando fundo – Se você dormiu com ele na segunda noite, com certeza dormiu com muitos outros.

– AGORA CHEGA! – Gritei tentando parar Camila – Você passou de todos os limites!

– Você é digna de desprezo. – Alice respondeu com lágrimas nos olhos – Eu espero que um dia, você possa se dar conta de todo o mal que está causando. – E falando isso ela saiu.

– Alice, espera! – Corri atrás dela – Espera, por favor! – A alcancei segurando seu braço.

– Quando essa criança nascer, eu vou fazer um exame de DNA e vou esfregar na cara dela. – Falou enxugando algumas lágrimas – Eu não tenho obrigação de passar por isso.

– Você não precisa fazer exame de DNA nenhum, porque ela não precisa acreditar em nada. – A olhei agoniado – Eu acredito no nosso amor.

– O que ela está fazendo aqui? – Perguntou se soltando.

– Eu a encontrei aqui. – Respondi tentando me explicar – Eu acabei de chegar, ela estava aqui querendo conversar comigo.

– Eu não aguento mais isso. – Voltou a caminhar, mas eu a impedi.

– Você precisa acreditar em mim, não existe mais nada entre nós dois.

– Eu vou embora.

– Então eu vou te deixar em casa.

– Eu vou de táxi.

– Alice... – Ela se foi mais uma vez. 

A raiva que eu estava sentindo de Camila, simplesmente triplicou depois daquela cena ridícula. Eu estava perdendo o controle da situação, tudo estava indo por um caminho que eu não esperava. Eu precisava dar um basta em tudo, caso contrário eu ficaria louco e ainda perderia Alice pra sempre.

– Sai da minha casa! – Falei dando de cara com Camila ao entrar novamente.

– O que? – Ela perguntou ainda parecendo surpresa.

– Presta bem atenção no que eu vou te falar! – A segurei pelo braço – Acabou, Camila!

– Luan, você não pode fazer isso!

– Não só posso como estou fazendo! – A soltei de uma vez – Volta pra sua casa, pro Canadá, pro inferno, MAS ME DEIXA EM PAZ! – Falei subindo para o meu quarto.

Eu não sei como ela reagiu depois que eu pedi que ela me deixasse em paz, mas pouco eu me importava. O que mais me importava naquele momento, era de encontrar uma maneira de trazer Alice cada vez mais para perto de mim. Eu não poderia mais continuar naquela situação, eu não poderia mais ficar sem ela, sem o nosso amor. Eu não queria mais fazê-la sofrer com minhas atitudes, com meus erros, minhas falhas. Era hora de tomar uma atitude de homem, de um verdadeiro pai de família, de começar a fazer as coisas certas.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

(Capítulo 71 – O tempo cura tudo)


Meu final de semana foi lindo, cheio de amor, porque é sempre muito maravilhoso ter minha mãe ao meu lado. Conversamos sobre vários assuntos, cozinhamos, falamos sobre o meu bebê e ela sempre muito cuidadosa. Fico aqui imaginando o quanto ela será uma vovó babona, fazendo todas as vontades do meu filho, querendo passar os finais de semana com ele. Isso me alegra tanto, saber que minha mãe estará sempre ao meu lado, me ajudando nos momentos que eu mais precisarei de seu colo. Ser mãe não é fácil, ela me ensinaria como agir, como lidar com cada situação e eu não poderia ser mais feliz por isso. Infelizmente ela precisou voltar pra casa, no domingo fui deixá-la no aeroporto com Laura, era hora de mais uma vez me despedir da minha melhor amiga.

A segunda-feira chegou linda, organizei minhas coisas, trabalhei o dia todo e aproveitei para marcar minha próxima consulta com meu médico. A cada dia eu sentia meu bebê crescer, se desenvolver dentro de mim, saudável e rodeado de muito amor. Laura me buscou na agência no final da tarde, eu estava me sentindo extremamente enjoada, mas muito feliz. Chegamos ao nosso condomínio depois de alguns minutos de um transito infernal, começo de semana era quase insuportável sair de casa.

– Você ainda tá muito enjoada? – Laura perguntou quando entramos no nosso apartamento.  

– Como nunca estive antes. – Choraminguei – Isso é muito ruim.

– Não acha melhor ligar pro seu médico?

– Eu vou tomar meu remédio, descansar um pouco. – Respirei fundo – Luan ainda vem por aqui hoje.

– Ele vai ficar preocupado.

– Se eu não melhorar até amanhã, volto na clínica. – A tranquilizei.

Enquanto Laura preparava nosso jantar, aproveitei para tomar meu banho demorando, mas meus enjoos só pioraram. Coloquei pra fora tudo o que eu comi durante o dia inteiro, me causando um mal estar inexplicável. Coloquei um pijama extremamente confortável, tomei meu remédio e me sentei na cama, na esperança de fazer minha respiração voltar ao normal. Acabei me assustando com o barulho na campainha alta, mas continuei respirando pausadamente, eu precisava melhorar logo. De longe ouvi a voz de Luan e foi impossível não pensar em como seria maravilhoso tê-lo ao meu lado em momentos como aquele.

– Posso entrar? – Luan bateu na porta.

– Claro, entra... – Respondi com dificuldade.

– Você tá bem? – Ele perguntou preocupado.

– Só estou um pouco enjoada. – O olhei tentando passar tranquilidade a ele.

– Um pouco enjoada? – Sentou ao meu lado – Tem certeza que é só isso?

– Eu vou melhorar. – Segurei sua mão com força.

– Não quer ir ao médico? – Perguntou ainda mais preocupado.

– Luan, isso é completamente normal.

– Eu não aguento te ver assim. – Olhou nossas mãos – Fico agoniado em te ver sofrendo e não poder fazer nada.

– É melhor você ir se acostumando, porque a tendência é piorar. – Tentei brincar, mas ele continuou sério.

– Você já tomou alguma coisa?

– Sim... – Respondi espremendo meus olhos – Agora eu só preciso ficar quietinha até o enjoo melhorar.

– Então eu fico aqui com você. – Me olhou carinhoso.

O olhei sorrindo por seu jeito bobo de agir quando está agoniado com algo, ele se tornava ainda mais cuidadoso, amoroso e gentil. Coloquei minha cabeça em seu ombro, fazendo ele me acolher em seus braços carinhosamente. Com uma mão começou a brincar com meus cabelos, enquanto com a outra e ele fazia carinho em minha barriga repetindo o tempo todo: “Não judia da mamãe, amor.” Ele era alguém especial demais, alguém que me fazia conhecer o amor nos mínimos detalhes. Depois de quase meia hora, eu consegui finalmente respirar normalmente, enquanto meus enjoos foram passando como um milagre de Deus.

– Está melhor? – Perguntou quando eu o olhei.

– Uhum! – Respondi sentindo seu cheiro bom.

– É melhor você comer alguma coisa, alimentar o nosso bebê. – Falou ainda com um semblante preocupado.

– Eu não sei se vou conseguir comer. – Arrumei meu cabelo.

– Eu trouxe uma surpresa pra você. – Sorriu me olhando.

– Que surpresa?

– É de comer.

– O que é? – Perguntei animada.

– Está na cozinha. 

– Então vamos...

– Alice, espera! – Me interrompeu segurando meu braço – Será que depois nós poderíamos conversar? – Perguntou sem jeito.

– Pode ser! – Respondi o olhando.

Seguimos até a cozinha, onde Laura terminava de preparar algo no fogão, enquanto conversava com Douglas por telefone. Luan me mostrou as surpresas que ele me trouxe, eu quase não acreditei que eu estava diante de duas maravilhas desse mundo.

– Sorvete e churros? – O olhei emocionada.

– Gostou? – Segurou minha cintura – Do jeitinho que você gosta. – Beijou meu rosto demoradamente.

– Mas antes você vai tomar um pouquinho da minha sopa. – Laura falou ao desligar o celular.

– Sopa? – A olhei desanimada.

– Vai te fazer muito bem. – Falou insistente.

– Não sei se vou conseguir comer.

– Você está com o estômago vazio, tem que comer alguma coisa forte.

– Mas...

– Luan, me ajuda?

– Sua prima tem razão. – Ele me olhou autoritário – Você precisa se alimentar bem. – E assim tirou o sorvete da minha mão – Depois você prova do sorvete e dos churros.

– Você vai tomar a sopa comigo? – Perguntei choramingando.

– Claro, eu amo sopa! – Respondeu satisfeito.

– Eu também vou! – Laura falou sorrindo – Venham, vou servir vocês!

É claro que eles só tomaram a sopa por minha causa, fazendo com que ela se tornasse ainda mais saborosa. Acabei repetindo, eles me distraiam, faziam de tudo para que eu estivesse bem. Acho que até o meu bebê amou aquele jantar saudável, coisa que eu precisava praticar daqui pra frente. Depois de nosso maravilhoso jantar, ajudamos Laura a lavar as louças sujas, secamos, guardamos e ela preferiu se recolher logo em seguida. Aproveitei para encher duas taças de sorvete pra nós dois, seguimos para a sala e nos sentamos no chão, enquanto eu procurava algo bom pra gente assistir na TV.

– Como foi receber a visita de sua mãe? – Luan perguntou quebrando o silenciou que se instalou entre nós dois.

– Foi maravilhoso! – Respondi sorrindo – É muito bom tê-la ao meu lado nesse momento, porque me sinto ainda mais segura.

– E o que ela acha de tudo isso?

– Ela acha que somos dois irresponsáveis. – O olhei – Mas ela acredita que as coisas aconteceram como estava escrito.

– Então nós temos a mesma opinião.

– Você não acha que tudo poderia ter acontecido mais pra frente? – Perguntei enquanto saboreava meu sorvete – Quando estivéssemos mais maduros na nossa relação?

– Talvez as coisas não tivessem essa mesma magia de agora. – Respondeu pensativo – Talvez tudo estivesse mais pesado, mais fora de ordem. – Me olhou sério – Eu acredito fielmente que tudo está acontecendo no momento certo.

– Está sendo muito doloroso ter que renunciar de coisas que eu lutei a vida inteira para concretizar. – O olhei – Eu ainda sinto muito, mas sei que lá na frente eu vou agradecer a Deus por tudo.

– Eu sei que está sendo mais difícil pra você do que pra mim.

– Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. – Falei séria – Não queria ter que enfrentar tudo assim.

– Eu sei que não. – Ele me olhou triste.

– Mas aí Deus me mostrou que as coisas não funcionam como eu quero, elas funcionam na maneira como deve ser, conforme a vontade dele. – Sorri de canto – E eu agradeço, aceito, estou disposta a seguir em frente com todas as promessas dele para a minha vida.

– Você é muito corajosa.

– Eu não tenho tanta certeza. – Sorri de canto.

– Eu queria poder te dar uma vida normal. – Confessou me olhando.

– Uma vida normal?

– Uma vida sem correria, sem pressa, sem pessoas querendo interferir no nosso relacionamento. – Falou me olhando – Queria poder te cuidar mais, te proteger, te proporcionar momentos inesquecíveis.

– Você faz tudo isso muito bem.

– Eu só sei te magoar com tudo o que acontece ao meu redor. – Foi sincero – Eu não sei lidar com certas situações que envolvem nosso relacionado e meu trabalho ao mesmo tempo.

– Eu não quero que se sinta culpado por nada.

– E como não? – Perguntou me olhando – Eu nunca imaginei sentir por alguém o que eu sinto por você.

– Luan...

– Tudo o que aconteceu que te fizeram se magoar comigo, me fizeram enxergar que a cada dia eu estou te perdendo um pouco mais. – Parecia agoniado – Tudo o que eu fiz, foi tentando encontrar uma maneira de concertar as coisas.

– Eu não sou forte o bastante pra conseguir superar tudo isso. – Falei com dor no meu coração – Eu também não sei lidar com esses desencontros.

– E o que a gente pode fazer? – Se aproximou sentando mais próximo de mim.

– Eu acho que tudo é uma questão de amadurecimento.

– E o que eu posso fazer se eu te amo tanto? – Acariciou meu rosto carinhosamente.

– Você pode pensar se é isso mesmo que você quer.

– Ficar pra sempre com você? – Perguntou me fazendo rir – Eu acho que Deus já respondeu essa pergunta por mim. – Falou tocando minha barriga – Ele construiu um elo eterno entre nós dois.

– Então que o tempo concerte tudo. – O olhei sincera.

– Você acha que um dia poderá me perdoar? 

– Eu não tenho do que te perdoar.

– Não?

– Não, eu só preciso que deixe o tempo cuidar de tudo.

– É a melhor coisa a se fazer. – Ele concordou comigo pela primeira vez.

– É sim. – Sorri o olhando – Vai ser mais saudável para nós dois e para nosso filho.

– Nós temos que pensar nele agora.

– Sim, nós precisamos pensar primeiramente nele. – Segurei sua mão – Luan, nós não podemos tomar nenhuma atitude precipitada. – Respirei fundo – Nós precisamos antes pensar no que é bom pra ele.

– Eu serei o homem mais feliz do mundo quando tiver vocês dois comigo.

– Nós já estamos aqui. – Segurei ainda mais forte sua mão.

– Você entendeu o que eu quis dizer.

– Vou pegar mais sorvete. – Levantei indo até a cozinha – Você quer? – Antes de terminar de perguntar, ele estava me imprensando no balcão.

– Você sabe que eu não estou mais aguentando. – Falou com sua respiração na minha – Tá sendo uma tortura ficar longe de você.

– Eu...

– Não fala nada. – Colocou seu dedo indicador sobre meus lábios – Eu só preciso sentir mais uma vez o gosto maravilhoso do seu beijo.

E sem dizer mais nada, ele selou nossos lábios em um beijo extremamente bom, com gosto de saudade. Eu poderia parar, poderia pedir que ele fosse embora da minha vida, mas eu não tinha coragem. Aquele momento estava sendo bom demais pra acabar assim, nem que fosse por alguns minutos. Luan me segurou com firmeza, me fez novamente ir à lua, me transmitindo uma sensação incrível de proteção. Eu não tinha como negar que ele era o amor da minha vida, não tinha como negar que eu também queria aquele beijo. Era nítido que nós dois não estávamos mais aguentando essa situação, então me deixei levar por tanta emoção. Depois de longos minutos nos beijando, paramos por falta de ar, enquanto Luan encostava sua testa na minha para tentar recuperar sua respiração.

– Eu vou embora... – Ele falou me olhando.

Eu não sabia o que falar naquele momento, como agir, se eu o deixava realmente ir mais uma vez. Eu queria que as coisas voltassem a acontecer naturalmente, com o tempo como nosso mais fiel companheiro. Eu sabia que se eu atropelasse as coisas naquele momento, tudo poderia dar errado novamente. Então o deixei ir, sem dizer absolutamente nada.